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Mindelo, a Cidade das Mulheres

Brito-Semedo, 25 Fev 15

 

Nhô Roque 1.png

Foto Arquivo Fátima Gonçalves

 

 

O determinismo do séc. XIX veicula-se na literatura da segunda metade do século com o Realismo-Naturalista, de que são figuras máximas os escritores Flaubert e Émile Zola, na França, Charles Dickens, na Inglaterra, Tolstoi, na Rússia, Antero de Quental, em Portugal, escritores esses que terão exercido maior ou menor influência sobre António Aurélio Gonçalves[1].

 

A filosofia determinista tende a acentuar a ideia da inevitabilidade de um acontecimento, enquanto o homem se sente subjugado por forças estranhas, que limitam e suprimem a sua aparente liberdade.

 

É devido ao determinismo que se diz que Xandinha estava a cumprir um destino ou é o próprio Cristiano a queixar-se da sua sorte:

 

“Eu era daqueles que dão volta ao mundo e regressam com as mãos vazias. Saciei-me de ver outros passar-me à frente, ajuntar cabedais, conquistar o seu quinhão de felicidade, mas eu?... Tinha nascido para ser explorado pela cadeia da vida”.

 

Bitinha, uma das “virgens loucas”, justifica-se: “Quando eu sinto o Lombo a chamar-me, lá [em casa da mãe] é que vou acabar o meu dia […]. Mamã não quer compreender que cada um vem a este mundo com um destino”.

 

Selo Nhô Roque.jpg

Provavelmente contra as concepções de Aurélio Gonçalves, homem de filosofia, racionalista helenística, as personagens são concebidas e manipuladas pelos fados.

 

A descrição da cidade do Mindelo, para além de servir para fixar uma fase do seu desenvolvimento, é funcional, na medida em que explica as características das personagens.

 

O afastamento geográfico do centro para a periferia, e desta para os bairros, dá conta da descida social na escala mindelense, até terminar nas zonas de gente humilde e desprivilegiada. Ou seja, as condições económicas garantem um determinado nível social que está intimamente ao local onde se habita. Miragem (1978) dá conta dessa relação:

 

“Tendo os maridos [da Telvina e da Tudinha] ocupado empregos modestos, desceram de classe e ficaram pertencendo àquela zona a que (sem o receio das designações que, em Cabo Verde, se tornariam pomposas demais) se dá o nome de burguesia pobre, ou mais modestamente: meia tigela, classe apagada, laboriosa, comedida, que luta esmagada entre as exibições e turbulências da classe mais alta (ou com mais pretensões) e a maioria, multidão, muito mais numerosa, todavia, anónima, formando massa compacta, indistinta, conhecida por ‘o povo’”.

 

Tomemos com exemplo a personagem Xandinha, da Pródiga. À medida que vai descendo na escala social, moral e económica, vai descendo na geografia da cidade. Curioso também é que também desceu de um nível físico alto para um nível físico baixo. Da Fonte Filipe, em casa da mãe, imaculada, arrenda um quartito a meias com Deolinda, Na Rua António Nola, e torna-se “pequena” de Jerónimo. Levada pelo “destino” Xandinha cai na companhia de Isidora e mora no Lombo-de-Trás onde tem uma vida de mândria de fome na barriga, de prostituição.

 

A cidade do Mindelo, com as suas características e peculiaridades, determina os comportamentos das personagens e leva-as a “sentir” necessidade de um companheiro ou companheira. É assim que “quando não há uma pequena morrer-se de aborrecimento” ou “menina sem um homem sofre muitas dificuldades”. A degradação moral feminina é igualmente consequência do meio onde os rapazes são uns malandros, a mulher não é respeitada e não se sabe que é que as meninas têm na cabeça. A esse respeito lê-se acerca de Xandinha: “S. Vicente tinha-a estragado, como só S. Vicente sabe estragar”.

 

Sendo o meio considerado determinante sobre as personagens, fica por explicar a razão de todos os protagonistas serem femininos. Russel G. Hamilton (1985:163) dá a sua interpretação:

 

“Ao lançar mão da mulher como protagonista […] demonstrava uma consciencialização referente à emigração, preponderantemente masculina, e às resultantes convergências da emigração sócio-económicas no arquipélago. A mulher é a herdeira da precariedade social e económica oriunda das contingências da emigração e do desemprego. É a instabilidade das relações entre a mulher e o homem que determina na temática, o discurso e a dinâmica da narrativa de Gonçalves”.

 

As protagonistas, seguindo a ordem cronológica das publicações, são as seguintes:

 

Xandinha (Pródiga, 1956) – sai da casa da mãe e, de queda em queda, vai parar ao viveiro agitado e venenoso do Lombo. “A vida em pouco tempo tinha-lhe colado uma máscara e lançara-lhe sobre os ombros uma capa de miséria, de aviltamento”. É quando, à semelhança do filho pródigo da parábola bíblica, decide regressar à casa materna.

 

Nha Candinha (O Enterro de Nha Candinha Sena, 1957) – é a amiga fiel, dedicada e amorosa com crianças. Contudo, amargurada e insucedida nos casamentos.

 

Nha Guilhermina (História do Tempo Antigo, 1960) - é a mulher que se informa para poder dar as novidades. Professa uma”religião feita de princípios que vai buscar a campos diversos: catolicismo, espiritismo, protestantismo… Lê as Cartas Doutrinais do centro espírita O Redentor, acompanha estas coisas todas”.

 

Nita (Noite de Vento, 1970) – desaforada, insubmissa e decidida, comete dois actos de rebeldia: primeiro, quando é ela a abandonar Lela, e não o contrário, e vai “amigar-se” com Virgílio; e, segundo, quando ela sai de casa do marinheiro apaixonado e vai viver com a mãe.

 

Nuna, Betinha e Domingas (Virgens Loucas, 1971) – são as três “virgens” que, num impulso de mulheres-borboleta, tentam aproximar-se da luz. São “loucas” porque se atrevem a negar o seu papel social quando, por uma noite, procuram ser “mulheres decentes”.

 

Biluca (Biluca, 1977, e Burguesinha, 1977) – é uma adolescente do Alto Celarine, toda desenvolta, descarada e danada (sem medo), consciente dos problemas e dos amores dos adultos. Sabe jogar com as circunstâncias para dali tirar proveito.

 

Etelvina e Tudinha (Miragem, 1978) – são amigas de convivência íntima, com temperamentos diferentes e um terrível engano na vida conjugal.

 

_________

[1] Confirma-se o perfilhar dessa filosofia no seu ensaio Aspectos da Ironia de Eça de Queirós, Lisboa, 1937, de que se transcreve o seguinte passo: “[…] a nossa visão é viciada pela nossa hereditariedade, pelas nossas paixões, pelas nossas sensações, pelo nosso meio, por todas as influências, conhecidas, obscuras, que, de cada vez, mais nos distanciam da percepção exacta, límpida, da realidade” (pág. 12).

 

 

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