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Há oito anos, no dia 17 de dezembro de 2011, Cesária Évora, aos 70 anos, partia para nos deixar “Sodade” e uma herança que transcenderia as águas atlânticas que separam as ilhas de Cabo Verde da sua extensa população diaspórica. O legado tem nome e ritmo: Morna, gênero musical que se tornou Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, na última quarta-feira (11), pela Unesco. 

A diva de pés descalços, como era conhecida, reinava na morna e foi a principal expoente desta expressão cultural e ancestral genuinamente cabo-verdiana. É o sorriso de Cesária Évora – capa do disco “Café Atlântico” (1999) – que abre a coleção “Morna: Música Rainha de nôs terra”, que reúne cinco livros + CDs e apresenta o percurso histórico da morna, desde que surgiu no final do século XVIII, na ilha de Boa Vista. O projeto foi lançado no final de novembro (um volume por semana) e é uma parceria dos jornais Expresso das Ilhas (Cabo Verde), Público (Portugal) e a editora a Bela e o Monstro.

O estudo é de autoria do antropólogo e professor universitário Manuel Brito-Semedo, com quem conversei sobre a harmonia em torno de uma música que é considerada a “alma do povo cabo-verdiano” e sobre a identidade de um país que tem mais gente fora do que dentro; estima-se que o dobro da população do arquipélago africano esteja na emigração. Ele mesmo revela que a própria Cesária Évora só obteve reconhecimento na terra natal, depois que foi lançada na França.

A partir dessa diáspora que vai, querendo ficar, geralmente empurrada pela inexistência de emprego nas nove ilhas, que sobrevive uma musicalidade cantada em crioulo, servindo como uma ponte imaginária que as conecta com aquele “Cabo Verde nôs cantinho querido. Berço de amor e sodade. Paraiso diAtlantico”**.

 

Manuel Brito-Semedo

 

Afinal, o que é a morna?

A morna é um ritmo dolente, é uma dança e é um texto poético. Uma música dolente que se dança muito lentamente. A música é morno, por isso que é morna (risos) e expressa todo um sentimento do povo, as tristezas, as angústias, a saudade, a partida, porque o cabo-verdiano é muito virado para o exterior. Cabo Verde são ilhas no meio do Atlântico, onde chove muito pouco, com muitas características semelhantes com o Nordeste do Brasil. E nós dizemos que a diferença, por exemplo, é que no Brasil quando não chove os retirantes têm para onde ir, nós não temos para onde ir, nós caímos no mar e para não cair, usamos o mar para ir a outro lugar. É por isso que temos muita gente emigrada – numa população de 500 mil, deve ter cerca de um milhão fora — e esse apego à terra é da pessoa que vai não porque quer. Dizemos que corpo que é escravo vai, alma que é livre fica. Estamos sempre a procura de Cabo Verde, buscando melhorar as condições e voltar. Então, a morna é uma música da saudade de quem fica na terra, de quem tem que partir, mas quer ficar. É saudade da terra, da cretcheu [pessoa querida], da mãe, da culinária, de tudo. De acordar de manhã e ver o mar todos os dias, de ter um clima acima de 20 graus e não passar frio. Tudo isso é espelhado na música. A morna é uma música de todas as ilhas, com particularidades em cada ilha, mas que acompanhou o desenvolvimento socioeconômico e cultural de todas elas.

 

A morna é apenas um dos vários gêneros musicais de Cabo Verde. O que faz um país com número pequeno de habitantes apresentar essa miscelânea musical estética?

Eu costumo brincar e dizer que a resiliência do povo cabo-verdiano é fascinante, porque é um povo que sofreu muito, passou pela escravatura —abolida na metade do século XI —, com fome, com seca, etc. A última fome foi a de 1947, que foi marcante porque as pessoas tiveram que ir trabalhar na roça, nas grandes plantações de São Tomé. Muita gente morreu em condições muito difíceis e ainda assim é um povo alegre, um povo de música, um povo que canta. Talvez seja um país onde há maior porcentagem de músicos por habitantes, quase toda gente tem essa alma de músico. Eu sou uma exceção, não canto, não toco, não danço, mais isto é outra coisa (risos). Mas, de uma maneira geral, os cabo-verdianos tocam ou cantam. E a música, quero crer, tem muito haver com nossas origens africana, dos grupos étnicos que foram levados da costa ocidental. Quando o padre Antônio Vieira passou pela cidade de Ribeira Grande, hoje Cidade Velha, ele pregou na Sé Catedral e na Igreja de Nossa Senhora do Rosário e ficou admiradíssimo porque ele encontrou padres negros tão sábios músicos, tão bons quanto os que ele tinha deixado em Lisboa. Quero crer que essa apetência pra música já é genética, já vem de toda essa influência e essa mistura que tivemos…

 

 

A emigração faz parte disso…

Para além do fato de sermos ilhas, a emigração em Cabo Verde começa cedo. Primeiro com a pesca da baleia, que foi a emigração para os Estados Unidos. Depois a emigração para a Europa a partir dos anos 1960, mas antes disso tinha o porto grande de São Vicente, ligando a Europa à América do Sul. Não eram apenas os produtos que iam, os bens culturais também. A nossa literatura moderna que é de 1936 teve por modelo o Brasil — quando falo Brasil sempre me refiro a Nordeste pelas características geográficas parecidas com as nossas —, e o Brasil sempre foi visto como o nosso irmão mais velho. Quando em 1822, o Brasil tomou a independência, ficou uma cláusula que as colônias africanas não deviam se juntar ao Brasil, chegou a ter um movimento em Cabo Verde para se juntar ao Brasil (risos). E é curioso porque através do porto grande de São Vicente que é nos anos 1930, entrou a influência da música. O nosso carnaval é muito parecido com o carnaval do Rio de Janeiro e inicialmente os sambas eram em português, mas depois passamos a ter em crioulo. O que temos termina por ser uma mistura: um ritmo muito brasileiro, mas com uma língua cabo-verdiana, nossa língua materna.

 

As mornas serem escritas e cantada sem crioulo é uma forma de valorização?

Sim. Nós nos expressamos na língua cabo-verdiana, não é possível falar de sentimento em uma língua que não é a nossa língua materna, mas também pode ser visto como uma forma de resistência, porque só nós entendemos o que estamos dizendo. Por isso, ao usar nossa língua própria, podemos dizer as nossas coisas, entre nós. A verdade é que 90% da nossa vida diária é na língua materna, a outra parte é na língua oficial portuguesa. Mas, curiosamente ou ironicamente, o crioulo não é a língua de ensino. A língua de ensino é a portuguesa e temos que trabalhar isso, pois depois dificulta em termos de resultado. É uma língua de escolaridade que nós não aprendemos em casa e temos que aprender na escola pra poder dominar a filosofia, a matemática, a física, etc. É uma situação complexa que nós temos que gerir, porque a questão da língua é uma questão política.

 

 

Como o título de patrimônio cultural e imaterial da humanidade pode contribuir com isso?

O que está para acontecer é a valorização da própria língua. Quando promovemos a morna que é baseada no ritmo, na dança e na letra que é em língua cabo-verdiana, estamos promovendo a nossa identidade. Eugênio Tavares fez algumas músicas em português, mas foi bem no início e são muito poucas. Na verdade, as mornas são todas em crioulo e o trabalho que eu faço na coleção na tentativa de por uma tradução livre da letra em português é para ajudar a compreender a mensagem e isto também tem a função de facilitar a entrada nos países de líga portuguesa. O crioulo pode parecer que é muito semelhante ao português, mas na verdade não é. A pessoa tem que estar muito atenta, mas se encontrar essa ajuda poderá compreender melhor. Afinal, não é tão difícil assim, as pessoas sentem a música pelo ritmo, mas agora o que estamos tentando fazer é ajudar a entender a mensagem e a outra coisa é que vai ajudar a fixar as próprias letras das mornas. Como é muito oral – que também é uma tradição africana – acontece a deturpação. Fazer um trabalho desse tipo também tem o propósito de evitar as variadas versões e o desconhecimento da autoria. Outra coisa que a morna como patrimônio vai exigir é que seja ensinado nas escolas, sobretudo que tenha escolas de música para aprender a escrever a pauta musical. Com isso, outras pessoas que não são de Cabo Verde – sobretudo porque nossos músicos tocam de ouvido ­– possam executar tal morna a partir da pauta musical.

 

A morna afirma a africanidade do povo cabo-verdiano?

A música afirma a nossa crioulidade em termos de que somos um povo mestiço que cria uma cultura própria e afirma a nossa identidade perante o mundo. A morna é a alma do povo cabo-verdiano. Ao ser reconhecida como patrimônio cultural e imaterial, a alma do povo cabo-verdiano passa a ser vista no mundo e passa também a ser reconhecida como a alma da humanidade. Nós já temos um patrimônio material da humanidade que é a cidade de Ribeira Grande, a primeira cidade europeia criada na costa ocidental da África. Mas com a morna, agora temos a imaterial que é a música, que é muito mais fluída em um mundo onde tanta gente consome música. Desde final de 1980, Cabo Verde é conhecida no mundo pela música e a cara da música é Cesária Évora. Às vezes não sabem nem quem é o presidente da república, nem o primeiro-ministro, mas ao falar de Cabo Verde já dizem: “Ah, a terra da Cesária Évora”. Então, foi a música que fez sermos conhecidos no mundo e isso mexe muito com a autoestima do povo cabo-verdiano, porque quem emigra são as pessoas que têm mais dificuldades, então essas pessoas na terra onde vivem, às vezes sentem na pele a discriminação, todas as dificuldades da própria integração. Com a morna reconhecida mundialmente, elas se sentem valorizadas, reconhecidas e a nossa identidade torna-se importante pela confrontação com o outro, porque estamos no espaço do outro e vemos que esse outro agora nos reconhece, nos valoriza pelo que fazemos. Então, vai ser muito bom sentirmos isso: que somos conhecidos, reconhecidos e valorizados por essa coisa bonita que é a música.

 

 

Como a diáspora cabo-verdiana se relaciona com a produção musical, sobretudo relativa à morna?

O cabo-verdiano aonde vai leva consigo Cabo Verde. Ele se encontra com os patrícios para comer a cachupa, para ouvir a música da terra e a partir dos anos 1960, que a emigração é, sobretudo, para Holanda, quem está na emigração se organiza em grupos para satisfazer isso. Por exemplo, a voz de Cabo Verde desses anos era dos conjuntos de pessoas que tinham emigrado. Nessa fase, eram grupos musicais muito bons, a princípio com uma mistura da música América Latina, mas que era para consumo da comunidade cabo-verdiana. Lisboa continua sendo importante em termos de difusão da literatura, da música, porque infelizmente entre os nossos países (Brasil e Cabo Verde) não circulam os bens culturais. E nós não temos por vezes condições — já vamos tendo agora em Cabo Verde — para ter estúdios, distribuição comercial, coisas do tipo, as pessoas que vivem lá fora têm maior facilidade, mais possibilidades. Então, nós temos gente que ficou em Cabo Verde que produz e temos gente que já nasceu na diáspora, nessas comunidades emigradas, e que continua a produzir música. E é curioso, por exemplo, que a emigração mais antiga que é da Ilha Brava para os Estados Unidos são muito mais conservadores em termos de tradição, a música da Brava que é cantada nos EUA parece que se cristalizou, porque é comunidade que se fecha entre si e a tradição é conservada. Já na Europa, hoje em dia, eles são muito mais abertos às influências e por vezes fazem outro tipo de música, mais comercial, mais vendável — digamos assim. Mas há uma ligação muito forte entre quem está lá fora e quem está em Cabo Verde. Quem está fora tem necessidade de ir ao país para contatar a terra, apresentar o que fez na Europa.

Primeiro, firma-se lá fora e depois volta, foi o que aconteceu também com Cesária Évora, que viveu durante muito tempo com muitas dificuldades e cantava nos botecos. Era uma mulher de vida noturna e deixou de cantar por que não ganhava nada com isso, pagava uma bebida, coisa assim. Foi nos anos 1980 que ela foi descoberta por alguém que trabalhava na França e com as redes de lá foi lançada na França e depois, vamos dizer assim, foi reconhecida em termos de Cabo Verde. Temos muito isso: a Europa ainda ter esse fascínio e essa capacidade, deles reconhecerem e depois ter reconhecimento interno. Um bocado isso de que o santo de casa não faz milagre. (risos)

 

E como se dá a participação das mulheres no ambiente musical da morna, percebe-se que o gênero feminino é uma voz frequente, enquanto que os homens figuram mais nas composições.

Primeiro, as mulheres são o objeto e o sujeito, digamos assim. Houve uma fase no início que eram as mulheres que criavam e produziam as mornas, sobretudo na região de Boa Vista, mas não temos como comprovar porque as mornas são de autoria desconhecida. Mas depois, sobretudo quando passa pra ilha de Brava, as mulheres passam a ficar mais dentro de casa e os homens assumem esse lugar. Em São Vicente, onde fica o porto, as mulheres não participam tanto da vida noturna, da vida da boemia. Algumas tinham piano em casa e por lá ficavam. Mas é Dona Tututa, que é uma mulher ousada, filha de um grande compositor, que vai tocar nas noites no Café Royal, onde passava gente que vinha do estrangeiro. Era uma fase econômica difícil para a família e ela tinha que fazer isso. Tututa é uma das primeiras compositoras que nós temos. Isso foi nos anos 1930, 40, 50 e ainda em 60, que é quando os homens se sobressaem na música. Em 1960, a voz de cabo verde era só de homem, depois vai surgir uma geração de mulheres, como Cesária Évora que retoma a carreira, Titina também surge como cantora. A partir de 1990 é que explode a presença feminina, tanto de quem vive em Cabo Verde, quanto das mulheres fruto da emigração, como Mayra Andrade, por exemplo, que nasceu em Cuba e é filha de cabo-verdianos.

 

 

A morna pode ser vista também como uma música que causou transformações sociais para sociedade cabo-verdiana?

Nós temos outro ritmo, que é a coladeira, dos finais dos anos 1950/60, que seria a morna tocada acelerada — se a morna é tocada 4/4, ela seria 2/4 acelerado. Ela é muito de fazer crítica e acompanha toda a história social da emigração. Esse ritmo mais acelerado foi muito usado para ter uma mensagem de denúncia, mais interventiva e o ritmo da morna foi usada, por exemplo, nesse sentido. A grande morna de sucesso de Cesária e de Cabo Verde é “Sodade”, que fala sobre alguém que vai para São Tomé trabalhar nas roças, nas condições de escravo, e fazem para essa pessoa uma serenata, onde vão acompanhando-a até o barco que vai levá-la pra São Tomé, porque muitos que iam ficavam por lá e morriam ou voltavam doentes. Essa era uma morna de denúncia, depois foi usada clandestinamente para mobilização política, sobretudo a partir da fome de 1947, para explicar como foi toda essa situação. A morna acompanha esse desenvolvimento econômico e social de Cabo Verde e acabou sendo também usada durante a mobilização para a luta da independência nacional. Na coleção “Morna – música de nôs terra” mostramos todos esses momentos.

 

É dizer então que a morna é componente da identidade cabo-verdiana?

Precisamente. A morna acompanha tudo, desde a emigração para os Estados Unidos, Europa e América do Sul. Ela está na literatura e ainda acompanhava o que estava acontecendo no mundo. Temos até uma morna traduzida para o inglês, que foi enviada para Churchill (risos). Tudo isso é cantado.

 

Quais são as outras consequências que o título de patrimônio vai gerar para a população cabo-verdiana, tanto os que vivem nas ilhas quanto os que vivem na diáspora?

O turismo tem um peso muito grande no PIB de Cabo verde. Já estamos com o desafio de um milhão de turistas que se esperamos ter em 2020/2021. O título vai gerar esse interesse pelas ilhas. As pessoas vão querer saber de onde vem essa música que agora foi reconhecida como patrimônio. Isso poderá ajuda muito, porque somos um país essencialmente turístico. E para os que vivem fora de Cabo Verde, o título vai ajudar principalmente os músicos, aqueles que vivem da música. Isso vai gerar mais emprego e uma série de coisas que envolve a cadeia da música. Este também será um desafio: como preservar e promover esta música que é nossa e que agora é do mundo. É um grande desafio.

 

Nas próximas quintas-feiras (19 e 26), o Especial das Seis (Rádio Educadora FM) vai destacar canções dos dois primeiros volumes da coleção “Morna: Música Rainha de nôs terra”. 

**Verso da morna “Paraiso diAtlantico”, de Manuel de Novas e é interpretada por Cesária Évora no disco “Café Atlântico”.

 

Juliana Dias é Jornalista, pesquisadora e produtora musical do programa Especial das Seis – Rádio Educadora FM.

Fonte: Portal Soteropreta, Salvador da Bahia

 

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