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"Noti" tchiga

Brito-Semedo, 4 Abr 20

 

Vieira Lopes.jpg

Foto: santiagomagazine.cv

 

 

Era figura habitual na nossa casa em São Vicente, era eu adolescente. Chegava como que meio envergonhado, respeitando até um adolescente, ao dar o bom dia ou boa tarde na terceira pessoa. No seu puro badio.

 

Ao avistar o meu pai, ele tirava aquele sorriso meio de lado, maroto, abusado, como se diz no bom crioulo de Soncente, e lhe pedia a benção. É que o meu pai, Álvaro Barbosa Andrade, Nununo, era o padrinho dele.

 

A partir daí, os dois, badios de pura gema, puxavam pelas lembranças de Cabeça-Carrera, mandavam umas bocas dos camaradas e sucediam-se as piadas da vida.

 

Eu não ficava para ouvir a conversa porque essa “liberdade” não existia naquele tempo, mas notava que abordavam vários temas. Depois de muitas estórias e causos, o meu pai sempre lhe perguntava pelo seu relacionamento com Deus. E ele dizia “somos muito bons amigos”.

 

Das poucas lembranças que me restam daquele tempo, guardo uma vez em que, como sempre, chegou à casa de gravata. Coisa rara para o meu pai que também a colocava só em “funções”.

 

“A bo, rapaz, ku ess mania di usa gravata...”, disparou o meu pai, ao que ele respondeu: “é pa Pedro (Pires) e ses camaradas prende mó ki ta bistido… ku ess mania kes teni di usa balalaica”.

 

Outro dia, eu e o meu pai o encontramos na rua, no Mindelo, e a meio da conversa o meu pai lhe perguntou “que dia bu ta ba almussa na casa?”, ao que respondeu “casa é di nho, kunvidan n ta bai…”.

 

Pouco do que conheço de Felisberto Vieira Lopes, soube-o a partir do meu pai. De Kaoberdiano Dambará li em poemas esparsos.

 

Meu pai reservava muito do que sabia, guardava bem os segredos e respeitava quem lhe confiava algo.

 

Mas lembro de como sempre se referia ao afilhado Felisberto: “muito inteligente, amigo do seu amigo, lutador, mas de uma personalidade única, às vezes bem estranha, complicada”.

 

Durante anos, perdi-lhe o rasto, depois à distância, sempre acompanhei a sua luta pelos seus ideiais. Na minha mente, tinha a "vaidade" de conhecer um combatente pela independência.

 

Sempre me chamou a atenção o pseudónimo dele, Kaoberdiano Dambará, sempre pareceu-me muito próprio e "chique". O significado encerra a sua história de vida.

 

Pelos escritos, desde os tempos de Noti, um raríssimo livro de poemas de fina pena e alta sensibilidade nacionalista e africanista.

 

Nos últimos dias, viu uma luz no fundo do túnel depois de uma luta de anos. Mas não quis o Criador que assistisse o desfecho.

 

O nosso último contacto foi, creio, em 2011, quando era eu director da TCV. Ele quis saber se podíamos fazer uma notícia precisamente sobre a "Burla dos terrenos", ao que lhe expliquei que eu não podia interferir no trabalho do Departamento de Informação e que o máximo que podia fazer era leva-lo até lá.

 

Guardei a cara dele de “resignação”, principalmente porque falámos do padrinho dele, Nununo, mas como homem da lei e nacionalista, acredito que entendeu o meu posicionamento.

 

Além de advogado exímio, guardo sim a imagem de amigo da família, homem distinto, fino, educado e um independentista e africanista de primeira hora, patriota convicto. Minha vénia e respeito.

 

Os especialistas do direito, historiadores e críticos da literatura têm um grande material à mão.

 

Feliberto Vieira Lopes faleceu neste dia 3 de abril na cidade da Praia, depois de uma queda em casa. Aparentemente.

 

Na hora da partida, deixo o poema de Kaoberdiano Dambará, que munca morrerá, “Ora dja tchiga”.

 

E que Cabo Verde saiba reconhecer esse filho distinto. À sua maneira.

A toda a família, aquele abraço.

 

Ora dja tchiga

 

Labanta bo anda fidjo d’Afrika,
Lebanta negro, obi gritu’l Pobo:
Afrika, Djustissa, Liberdadi

 

Obi gritu’l Pobo na Sistensia, na funko,
na simiteri, na lugar sem tchuba,
na bariga torsedo di fomi

 

Dexa bo funko, dexa bo mai, bo armun,
dexa tudo, pega na kunsiensia bo subi monti:
finka pena tchom bo pega n’arma.

 

Brandi fero, riba’l monti,
ko fomi o ko fartura, ko guerra o ko paz,
luta pa liberdadi’l bo terá!

 

Álvaro Ludgero Andrade

 

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