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O Falucho balança, balança…

Brito-Semedo, 9 Ago 18

 

Falucho - LogoMarca2.PNG

 

Carvalho by Hamilton Silva, 2008.jpg

 

Homenagem aos Capitães de Faluchos e Veleiros das Ilhas

 

 

Ancorado na baía, sem hora marcada para a partida, o Falucho balança, balança…

 

 

E ele [marinheiro] vai baloiçando como um mastro

Aos seus ombros apoiam-se as esquinas.

 

– Sophia de Mello Breyner Anderson,

“Marinheiro sem Mar”, in Mar Novo, 1957

 

  

O Balançar do Falucho

 

Dobrada a “Esquina do Tempo”, o cronista decidiu ser marinheiro de “Falucho”, criar um novo projecto de escrita e viajar pelos mares das ilhas à procura de estórias e de fixar hábitos e costumes das suas gentes.

 

Também as viagens são deslocações relativamente longas com estadias mais ou menos demoradas em alguns destinos. Mas é nosso entendimento que as viagens efectuadas pelos faluchos na ligação entre ilhas próximas, com duração, por vezes de menos de uma hora, porque de poucas léguas, com movimentos de vaivém, não se enquadram nessa definição. Daí as termos designado por movimentos, adequando-as à noção de crónica, que é, ao fim-e-ao-cabo, uma narrativa curta de leitura rápida.

 

Este é o balançar do falucho, no duplo sentido do termo: “oscilar, mover-se de um lado para o outro” e “fazer o balanço de (contas)”.

 

Durante nove meses – Novembro de 2017 a Agosto de 2018 – mantivemos esta coluna quinzenalmente, com crónicas de temas os mais variados com enfoque sobre o mar, navios e capitães das ilhas. O projecto chega agora ao fim.

 

Navegar é preciso

 

Os captons das ilhas, homens do mar e intrépidos marinheiros referidos nas crónicas, da Boa Vista, da Brava, de São Nicolau, de Santo Antão, de São Vicente, do Fogo, do Maio, um por um – Nho Frank, Nho Ni, Nho Henrique de Lola, Nho João Pedro Martins/Nho Jôm Ped de Canja, João de Deus Lopes da Silva, Armando d’Isilda, Augusto Brito Lima/Gust d'ti Pól, Marcos Lopes… – foi fazendo a sua viagem sem retorno para a terra-longe.

 

Alguns, poucos, desses nossos lobos-do-mar – Alberto Pancrácio Lopes, Crisanto Rufino Lopes e Valentim Lucas/ Vula – impõem a sua presença e, curvados sob o peso dos anos, olham para o horizonte, e resistem à perda da memória e ao esquecimento desse tempo.

 

Os nossos navios (faluchos e veleiros) – Carvalho, Conceição Maria, Ernestina, Gavião dos Mares, Ildut, Ilha do Fogo, Madalan, Maguy, Manelica, Maria Sony, Matilde, Nauta, Novas de Alegria, Porto Grande, Primos, São Nicolau, Sal-Rei, Santa Maria… – sem comando, sem bússola e sem destino foram de encontro às rochas, desapareceram no mar, quedaram-se inertes nas baías ou apodreceram nas praias

 

Navegar é viver

 

Com a devida vénia, trazemos para aqui, porque mais que oportuno, o texto “Navegar”, publicado inicialmente no site da Universidade de Coimbra:

 

No século I a.C., o general romano Pompeu encorajava marinheiros receosos, inaugurando a frase “Navigare necesse, vivere non est necesse.”

 

Corria o século XIV e o poeta italiano Petrarca transformava a expressão para “Navegar é preciso, viver não é preciso.”

 

“Quero para mim o espírito dessa frase”, escreveu depois Fernando Pessoa, confinando o seu sentido de vida à criação.

 

E cantando a coragem navegante, em jeito de fado brasileiro, Caetano Veloso escreveu Os Argonautas. “Navegar é preciso, viver …” Com um fim inacabado, a música lança as interrogações.

 

Navegar é preciso?

 

Sim! Navegar é uma viagem exacta. Fazia-se com bússolas e astrolábios. Hoje, faz-se com satélites, GPS’ e www’s.

 

Viver não é preciso?

 

Não! É uma viagem feita de opções, medos, forças, inseguranças, persistências, constâncias e transições …

 

Mais de 2000 mil anos depois, interrogamo-nos:

 

Viver não é preciso?

 

Não, quando navegar é sonhar, ousar, planear, arriscar, empreender, realizar…

 

Porque aí, navegar é viver.

 

In Site da Universidade de Coimbra

 

OS ARGONAUTAS

 

Como um aceno de despedia fica a letra da música “Os Argonautas”, de Caetano Veloso:

 

O Barco!

Meu coração não aguenta

Tanta tormenta, alegria

Meu coração não contenta

O dia, o marco, meu coração

O porto, não!...

 

Navegar é preciso

Viver não é preciso...

 

O Barco!

Noite no teu, tão bonito

Sorriso solto perdido

Horizonte, madrugada

O riso, o arco da madrugada

O porto, nada!...

 

Navegar é preciso

Viver não é preciso…

 

O Barco!

O automóvel brilhante

O trilho solto, o barulho

Do meu dente em tua veia

O sangue, o charco, barulho lento

O porto, silêncio!...

 

Navegar é preciso

Viver não é preciso...

 

 

– Manuel Brito-Semedo

 

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