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"O Fiel Defunto", de Germano Almeida

Brito-Semedo, 30 Jun 18

  

Fiel Defunto.jpg

 

 

No mar, tanta tormenta e tanto dano,

Tantas vezes a morte apercebida;

Na terra, tanta guerra, tanto engano,

Tanta necessidade avorrecida!

Onde pode acolher-se um fraco humano,

Onde terá segura a curta vida,

Que não se arme e se indigne o Céu sereno

Contra um bicho da terra tão pequeno?

 

Luís de Camões, in Os Lusíadas,

Estância 106, Canto Primeiro

 

 

Germano Almeida, 30.º Prémio Camões

 

Autor de dezoito títulos – de que se destaca, O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo (1989); O Meu Poeta (1990); A Ilha Fantástica (1994); Os Dois Irmãos (1995); Estórias de dentro de Casa (1996); Estórias Contadas (1998); As Memórias de Um Espírito (2001); O Mar na Lajinha (2004); De Monte Cara Vê-se o Mundo (2014); Regresso ao Paraíso (2015) e O Fiel Defunto (2018) – Germano Almeida é Prémio Camões 2018, o segundo escritor cabo-verdiano a ganhar esse prémio, atribuído anteriormente a Arménio Vieira, em 2009. A sorte dá muito trabalho!

 

Instituído por Portugal e pelo Brasil em 1989, o Prémio Camões é o maior galardão de prestígio da língua portuguesa. Com a sua atribuição, é prestada anualmente uma homenagem à literatura em português, recaindo a escolha num escritor cuja obra contribua para a projeção e reconhecimento da língua portuguesa.

 

“O Prémio Camões para Germano Almeida é um motivo de orgulho e de alegria para todos nós, seus amigos e fiéis leitores, mas comemorar esse prémio com o lançamento de um novo romance é motivo de redobrada alegria” – Ana Cordeiro, Ilhéu Editora

 

Ironicamente, Germano Almeida lembrou-me que, há muito, lhe venho “gorando”, agourando [como se isso fosse mal], até que acabou por acontecer. “Agora, que chatice, ser Prémio Camões!”, imagino-o.

 

Sempre acreditei e desejei que o escritor Germano Almeida fosse Prémio Camões. É que sendo eu “pessoa amiga” poderia usar isso para me “basofar” junto das minhas netas. Daí ter tirado várias fotografias com ele antes para usar como prova.

 

Quando soube que o Germano era Camões fui logo pondo-o à vontade para que pudesse escolher outro apresentador, assim, mais “camoniano”. Por pirraça ou para cumprir a palavra dada ou porque já não tinha pachorra para procurar outro apresentador, cá estou nesta função e com muito gosto.

 

Confesso-vos com orgulho que tenho o privilégio de ter os dois Camões cabo-verdianos como meus amigos e que é uma honra ser o apresentador de uma obra de um autor com prémio de prestígio. De facto, é ôte lével.

 

Germano Almeida, o Romanceador de Estórias

 

A 8 de Julho de 2017 o Diário de Notícias escrevia que “O ‘contador de histórias’ cabo-verdiano Germano Almeida, um dos mais traduzidos de Cabo Verde, está a trabalhar no que considera ser o seu primeiro romance, que deverá chegar às livrarias no próximo ano [O Fiel Defunto]”.

 

"Estou a escrever um romance. Sempre disse que sou um contador de histórias e desta vez vou escrever um romance. Acho que é o meu primeiro romance (…) uma história completamente ficcionada", que se distingue dos outros pela “riqueza de pormenores”, disse Germano Almeida.

 

Para percebermos o que quis Germano Almeida dizer e saber em quê é que O Fiel Defunto se distingue dos outros livros deste autor, convém entender o que pode diferenciar essas duas formas narrativas: contar estórias | romancear estórias.

 

Contar Estórias | Romancear Estórias

 

. Contar ou Ficcionar Estórias

 

Quando se quer contar uma estória real ou imaginária, produz-se um texto narrativo. Essa estória é contada por um narrador e as personagens desenvolvem uma acção que decorre num determinado espaço, durante um certo período de tempo.

 

Para Germano Almeida, intitular-se como “contador de estórias”, mais do que modéstia ou jeito desprendido de dizer as coisas e de encarar a escrita, é dizer que o material para a sua escrita está lá, existe ou existiu a nível do real, do factual – “As matérias estão por cá espalhadas e aos pontapés de quem tem ouvidos (…), melhor, andam no ar à disposição dos neurónios de cada qual” – e que ele, enquanto escritor, “apenas” a está a contar, pondo-lhe algum tempero, claro, pela sua forma de narrar. Já ser “romancista” é “criar uma estória, completamente ficcionada”, com alguma profundida de análise e bastantes detalhes.

 

Contudo, isso não é tão líquido assim. Embora se saiba que a criação literária é um produto da imaginação, convém dizer que ela é feita de reminiscências que a ligam à realidade, de experiências directas e daquelas colhidas em relatos orais ou escritos fornecidos por outrem. Assim, a palavra invenção não tem um significado absoluto, já que nada se traz do nada.

 

Nas palavras avisadas do escritor António Lobo Antunes (Lisboa, 1942 –), "Nós não inventamos nada. Quando estamos a fazer um livro estamos a falar de nós mesmos. É você que está no livro, através daquelas vozes. Ou melhor, é apenas uma voz." – Revista Tabu/Semanário Sol, 2008

 

Em O Fiel Defunto lê-se a páginas tantas: “O escritor [Miguel Lopes Macieira] concordou que é impossível escrever sem pôr nos livros muito do que somos e disse que de certa forma os romances são autobiografias disfarçadas”.

 

Estórias contadas ou estórias inventadas, com mais ou menos pormenores, o que existe são narrativas do escritor, uma "escrevivência", sendo Germano Almeida um “contador de vidas”, e é isso que conta, meu contador de estórias e romancista, agora Prémio Camões.

 

. Personagens = vozes do Autor

 

"As personagens do meu romance são as minhas próprias possibilidades não realizadas" – afirmação de Millan Kundera, escritor checo (Brno, 1929 –), em A insustentável leveza do ser, Edições Dom Quixote, 1998, pg. 275:

 

“É o que faz com que goste igualmente de todas elas e também com que todas elas me assustem igualmente um pouco. Todas, sem excepção, atravessaram uma fronteira que eu só contornei. O que me atrai precisamente é essa fronteira que elas atravessaram (a fronteira para lá da qual acaba o meu eu). E é somente do outro lado que começa o mistério que o romance interroga. O romance não é uma confissão do autor, mas uma exploração do que a vida humana é nesta armadilha em que o mundo se converteu." (op.cit.)

 

Sendo nós originários das ilhas e vivendo em meios pequenos e, convenhamos, acanhados, onde a relação de parentesco é uma teia emaranhada, por vezes complexa, sem a possibilidade de anonimato e onde a vida e as estórias das pessoas e das famílias são praticamente do domínio público, os leitores são facilmente levados a identificar as narrativas e as personagens de qualquer obra literária, forçando-as ou colando-as mesmo a pessoas concretas e a factos do seu conhecimento. Chamo a este tipo de personagens, “personagens vivas”, porque autênticas, podendo existir fora da obra e com elas tropeçar-se na rua, salvo seja.

 

Com as explicações de Lobo Antunes e Millan Kundera, estamos respaldados para garantir que as personagens de O Fiel Defunto não são pessoas vivas, reais, mas que o autor está a falar de si, das tais coisas de que não fala e que aparecem de maneiras desviadas, em que as personagens por si criadas são apenas vozes.

 

Mas se estão à espera de identificar “personagens vivas”, reais, bzôt ta panhá baziu! E mjôr bzôt bá tmá vente na placa.

 

O Fiel Defunto

 

Esclarecido este facto, passemos ao livro, cujo acto de apresentação parece um de já vu porque é idêntico ao que está a acontecer agora, neste momento:

 

“[…] nesse dia o vasto auditório transbordava de uma festiva multidão de fãs e outros curiosos, todos impacientes ante a expectativa de ter um autógrafo no já muito badalado livro que se preparavam para adquirir.

 

[…] nessa tarde tinham‑se juntado mais convidados e estranhos do que era habitual nos lançamentos de livros em Mindelo, embora de certa forma houvesse razões que justificavam essa relativa enchente”.

 

E é quando se dá a tragédia:

 

“Toda a gente foi apanhada de surpresa, pelo que ninguém tentou impedir o inesperado assassinato do mais conhecido e traduzido escritor das ilhas”.

 

. As Estórias de Defuntos

 

Germano Almeida parece ter uma predilecção especial para contar estórias de falecidos que, antes de o serem tiveram uma vida muito activa e cheia de peripécias.

 

O escritor dá vida aos mortos, cria situações insólitas e faz rir. E faz isso com técnica e como recurso, indo ao passado e como forma de explicar o presente.

 

Foi assim com O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo (nô trá boca de morte!), foi assim com Os Dois Irmãos (nô trá boca de morte!), foi assim também com A Morte do Meu Poeta e As Memórias de Um Espírito (nô trá boca de morte!), foi ainda assim com A Morte do Ouvidor (nô trá boca de morte!) e é agora com O Fiel Defunto (nô trá boca de morte!), hic, hic, hic! Ai, que não aguento e fico fusco de tanto beber para tirar a boca do morto.

 

Freud explica, ou talvez melhor o irmão Geraldo Almeida, que conta factos como as quatro vezes em que o irmão se safou ou desafiou a morte – ao nascer, quase se sufocando no saco amniótico; quando criança, engasgado com uma semente de manga e quando caiu ao mar e não sabia nadar; e durante a tropa na guerra colonial quando esteve desaparecido por largos meses – talvez seja por isso mesmo que o Germano brinca com a morte e a trata por tu.

 

O Último Mugido

 

Livro aguardado, noticiado na rádio nacional, anunciado na televisão e divulgado de post em post do facebook, que ia ser apresentado no Auditório Onésimo Silveira da Universidade do Mindelo é o leitmotiv para se contar a estória da personagem central, evocada nas horas que antecedem ao acto do lançamento.

 

A saída de cena do escritor, com o seu assassinato, abre espaço para a personagem Brito-Macieira, o apresentador de O Último Mugido, enquanto primo em primeiro grau e único familiar, assumir a organização das exéquias fúnebres (página 96 em diante), e para Mariza, a companheira do escritor, chegada dos Estados Unidos para assumir a direcção dos assuntos relativos ao marido (página 171 em diante).

 

O poder político dá indicações de que o escritor vai ter direito a funeral do Estado com as honrosas presenças do chefe de Estado e também do chefe do Governo, para além, é claro, do ministro da Cultura que, expressamente quer dirigir a cerimónia – “era o ministro da Cultura que devia estar a querer aproveitar a morte do maior escritor para se projetar em S. Vicente, era o primeiro-ministro que, para além de apresentar os seus pêsames, dizia que no dia do enterro estaria presente representando todo o Governo, e foi depois o presidente da República em pessoa que queria representar o país todo nesse momento de dor nacional”.

 

O presidente da Câmara telefona “Com um imenso pedido de desculpas disse que queria ir pessoalmente, mas ninguém imaginava os inúmeros afazeres da administração municipal, aqueles que falam mal é realmente por pura ignorância ou simples maldade, é altercar com os funcionários, é debater com o Governo, é aturar os chatos dos munícipes que não entendem que a sua participação se esgota no dia do voto…”. Ao oferecer os préstimos da Câmara, Brito-primo sugere-lhe comprar todos os exemplares de O Último Mugido para oferecer a todos os presentes no funeral!

 

Entretanto, regressa Mariza e fica-se a saber que o escritor deixara um testamento onde expressava a vontade de ser cremado sob os acordes de uma das sinfonias do Maestro da Cidade. Ao saber-se as vontades do defunto, baralha-se tudo e as exéquias oficiais têm de ser alteradas e criadas as condições para o cumprimento do testamento – “as suas últimas vontades têm de ser respeitadas”, diz Mariza.

 

Um aból! Esta é a parte hilariante da estória.

 

. O Fiel Defunto e suas Personagens

 

O Fiel Defunto é a efabulação da realidade sanvicentina e de Cabo Verde do ponto de vista social, cultural e político, em que o autor ironiza e troça dos seus muitos tiques, próprios de um meio pequeno – “terra chiquita, inferno grande” – com gente da pequena burguesia tradicional cheia de nov‘horas e de políticos oportunistas.

 

As personagens, apenas para falar das mais relevantes para a trama do romance, são as seguintes: Miguel Lopes Macieira, ex e de-novo-escritor e malandrão, autor de numerosos e celebrados romances, “o paridor de gémeos”; Prof. Dr. Jesus de Brito-Macieira, Maica para os amigos, primo em primeiro grau do autor, professor da Universidade de Cabo Verde e fiel apresentador do livro; Mariza Silveira, companheira de Miguel dos anos de escritor e que decidira ir viver para os Estados Unidos; Edmundo do Rosário, Ed, o maior e mais íntimo amigo de Macieira; Matilde, esposa e amor da vida de Edmundo, tendo em Macieira um amigo, confidente e cúmplice; Maestro, o grande compositor da ilha; Mindelo, a “capital cultural” de Cabo Verde, ambiente de toda a textura da obra.

 

Por que “fiel defunto”, questionou-me um amigo, ao que retruquei que dos falecidos só se fala bem e de forma elogiosa. Eventualmente mais uma ironia.

 

. A linguagem

 

Quando da apresentação Do Monte Cara Vê-se o Mundo, em 2014, dizia o seguinte e volto aqui a afirmar sem tirar nem pôr:

 

“Uma peculiaridade da escrita de Germano Almeida é o seu tipo de linguagem que oscila entre a ironia e o sarcasmo, com muita malícia à mistura, o que faz com que a leitura seja agradável e estimulante. Uma linguagem sem pudor, de gente grande, de voluntaréza e coisas de non pode ser pelo meio, que um sem-ciénça como eu – como alguém me chamou certa vez numa apresentação de livro – não tem coragem de partilhar com o público. Assim, têm que adquirir o livro para saberem do que estou a falar”.

 

O Fiel Defunto é um romance de leitura agradável, cativante e cheio de humor, ou não seria uma obra de Germano Almeida, esse grande contador de estórias, digo, fazedor de narrativas. Esta é uma obra para se ler de um fôlego. Recomendo.

 

– Manuel Brito-Semedo

 

 

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