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Oh-na-mar…

Brito-Semedo, 17 Mai 18

 

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À memória do Capitão João de Deus Lopes da Silva,

Capitão de longo curso e do mar das ilhas

 

 

De pé na ourela do cais

velejo para aquém do mar alto.

De mim jamais, eu me saio,

dos outros, jamais, eu me aparto.

 

No meu pulsar de marinheiro

navega teu coração.

Nunca o amor é de menos

nunca a saudade é de mais.

 

– Gabriel Mariano, Ladeira Grande, 1993

  

 

Gabriel Mariano 1.jpg

Gabriel Mariano (José Gabriel Lopes da Silva, São Nicolau, 18.Maio.1928 – 2002), poeta, ficcionista e ensaísta, se estivesse vivo completaria 90 anos na próxima sexta-feira. Em jeito de homenagem, Falucho leva a bordo as suas personagens João Cabafume, passador de calaca, e Caduca, rocegador da ponta-de-praia (Vida e Morte de João Cabafume, 1976), e Nho Ambroze, coração do povo (Capitão Ambrósio, 1956) – as vozes do autor ou as próprias possibilidades não realizadas – numa viagem pela memória à baía do Porto Grande e à cidade do Mindelo.

  

Memórias da Baía do Porto Grande

 

A década de trinta entrara com uma grave crise mundial – a recessão económica de 1929-1934 – e Cabo Verde não pôde deixar de sentir a repercussão dessa crise.

 

Em 1932, a ilha de São Vicente atravessava momentos torturantes. A companhia carvoeira Wilson Sons reduziu a semana a 4 dias e meio e falava-se em que, continuando a actual situação, ver-se-iam as outras companhias obrigadas a diminuir o pessoal. Os trabalhadores passavam dias e dias sem trabalho.

 

A 7 de Junho de 1934, um grupo cada vez mais numeroso de homens, mulheres e crianças percorreu algumas ruas da cidade do Mindelo, arvorando um pano preto a servir de bandeira, aos gritos de MISÉRIA e FOME, na intenção de forçar as autoridades locais a solicitarem ao Governo da Colónia as providências que se impunham para socorrer a população desempregada.

 

É sobre este pano de fundo que, anos mais tarde, Gabriel Mariano escreve os seus poemas e contos.

 

João Cabafume, passador de calaca

 

João Cabafume não é ficção, existiu mesmo, confirma-se [“à memória de João Cabafume”]. Inspirou o poeta e ficcionista que o imortalizou:

 

João Cabafume

 

Recordo a tua vida

 

Catraeiro valente da baía

rocegador de carvão no fundo da baía

adoecendo depois tão longe da baía.

Havia um lugar vago no meu coração

e João Cabafume entrou.

 

“João Cabafume não foi um qualquer. Ele não era como um eu, ou como um tu que estendemos a mão para outro pôr corda. (…) virou catraeiro, depois passador de contrabando, depois negociante de bordo. (…) Passador de calaca, brigou com o destino no meio da cidade e derrubou-o na baía do Porto Grande. (…) Recado de João Cabafume devia ser recado de passador de calaca”.

 

Caduca, rocegador da ponta-de-praia

 

Caduca é rocegador da ponta-de-praia…

 

“Caduca só rouba as lanchas de carvão quando a lua enche o céu e engole as estrelas. Caduca cai na água e desliza feito moreia. Caduca vai devagar porque a lua cheia boia a seu lado. Os lanchões são pretos, pretos e altos. (…) Leva ao pescoço um saco velho onde cairá o carvão roubado. Caduca amarinha pela corrente das âncoras e alcança o convés. Vai devagar com a barriga lapada ao convés de ferro. Três pedras de carvão enchem-lhe o saco velho. (…) A proa da lancha é alta e Caduca dobra-se para formar o salto. O corpo ginga e fende o ar”.

 

As muitas perguntas para as quais Caduca não conseguia resposta:

 

“Se destino desta terra é apodrecer na ourela do mar que é que Caduca vai fazer? E os outros? Que é que os outros vão fazer? Que vão fazer os rocegadores de carvão? E os catraeiros em bote? E as carregadeiras do cais, e as meninas de vida?”

 

Caduca pensa que ir para o Sul é apenas trocar a hora da morte.

 

Nho Ambroze, coração do povo

 

A revolta do povo do Mindelo, que foi um acontecimento histórico datado (07.Junho.1934), ao ser-lhe atribuído uma carga simbólica, transformou-se num mito. Nesta decorrência, Nho Ambroze [Ambrósio Lopes (Santo Antão, 1878 – São Vicente, 11.Junho.1938), um carpinteiro muito loquaz e desembaraçado, com algum prestígio entre os vizinhos e junto das gentes a que pertencia], o líder dessa revolta, foi feito herói.

 

Gabriel Mariano, ao transformar o carpinteiro da Ribeira Bote num símbolo da resistência, em poema datado de 1956, mitificou-o: Capitão dos mortos ultrajados/ Capitão dos vivos humilhados/ […] / Meu capitão.

*

O Falucho veleja entre a Ponta de Morro Branco e a Ponta de João Ribeiro, os guardiões da baía e da cidade, hoje abandonados e esquecidos, parte de uma História de diazá que parece tão distante...

 

De pé na ourela do cais

velejo para aquém do mar alto.

 

– Manuel Brito-Semedo

 

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