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Os Sokols de Cabo Verde

Brito-Semedo, 20 Ago 16

  

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 O Governador passando revista aos Sokols (pelotão de oficiais). Foto Manuel N. Ramos, 1933

 

 

Em Homenagem a Júlio Bento de Oliveira, Comandante dos Sokols

 

 

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Em 1932, Júlio Bento de Oliveira (Santo Antão, 29.Dezembro.1905 – 30.Abril.1984), um funcionário da Western Telegraph Company, fundou em São Vicente uma organização de massa juvenil inspirado no movimento checo surgido em 1862, com o nome de os “Sokols de Cabo Verde”.

 

Os Sokols, para além da cultura física, procuravam inculcar nos seus membros os valores cívicos e democráticos que também regiam a sua congénere da Checoslováquia, tendo deixado profundas marcas no seio dos jovens mindelenses.

 

O nome da associação foi posteriormente mudado, com a tradução da palavra sokol, para “Falcões de Cabo Verde” e os seus Estatutos publicados no Boletim Oficial, N.º 52, de 29 de Dezembro de 1934.

Razões internas e externas serviram de pretexto para o Estado Novo ditar o seu fim:

 

– em 1934, durante a “Revolta de Nhô Ambrose”, a associação tinha ajudado a acalmar o povo, tendo demonstrado simpatia pela sua causa;

 

– em 1937, os “Sokols de Cabo Verde” manifestaram o seu repúdio pela decisão governamental de extinguir o liceu;

   

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 Grupo de Cadetes dos Sokols. Demonstração de ginástica. Foto Progresso, Mindelo, 1936

 

– em 1938, a culminar, a Checoslováquia foi invadida pelo exército nazi e deixou de existir como país independente.

 

A 17 de Fevereiro de 1939, a associação dos “Falcões de Cabo Verde” foi extinta pelo Decreto N.º 29.453 e imposta no seu lugar a “Mocidade Portuguesa”, convertendo-se aquela na sua Ala N.º 2 “Afonso de Albuquerque”.

 

Henrique Teixeira de Sousa (Fogo, 1919 – 2006), um antigo membro dos sokols quando estudante liceal em São Vicente, faz a recuperação da história dessa organização no seu romance Capitão-de-Mar-e-Terra (1984), das origens ao seu desaparecimento, passando pelas suas actividades e manifestações cívicas.

 

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Origens

 

“Joel Sokol falava com fluência, com ar de chefe, e respeitando a gramática. Estudou no Seminário-Liceu de São Nicolau […] era também profundamente católico, nada tendo portanto a ver com a juventude hitleriana a organização que fundara em Cabo Verde, por inspiração, sim, dos Sokols de Praga. O que havia era um pouco de inveja por parte daqueles que, sendo pessoas importantes, nunca conseguiram, nem conseguiriam, empolgar a juventude mindelense como ele, Joel, conseguiu. […]. Desde que Joel inventou os Sokols, não mais os botequins e a Praça Nova viram um mancebo nos dias úteis da semana a gastar o seu tempo em grogues ou conversa de asneiras”, p. 129.

 

Comandante dos Sokols

 

“Noite avançada, no momento em que se dançava uma valsa, entrou o comandante dos Sokols. Chegou muito tarde, talvez porque estivesse de serviço no Telegraph. Surgiu reluzente no seu dólman branco cravado de estrelas. Por sobre a pala de boné pousava um falcão de asas abertas. […]. A juventude perfilou-se em saudação ao Sr. Jjoel. Feitas as continências, soou com vigor o grito de guerra: “Drei zdrau, zdrau, zdrau”. Imediatamente lhe meteram uma dama entre os braços e ordenaram à orquestra que reencetasse a peça. O Sr. Joel conseguiu deveras abrir as pálpebras das acompanhantes na valsa em que rodopiavam as estrelas, o talabarte e o cinturão, o falcão de bico adunco e asas desfraldadas, rodopio delicado, emparceiramento folgado, discreto, não a colagem indecente dos pares de agora”, pp. 103-104.

 

Desfile e roteiro

 

“Quando os sokols saíam à rua todo o mundo era sacudido por um sismo interior. Mancos e aleijados, sabidos e néscios, gatos e cães, viravam possessos, com vibrações que ainda mais acirravam a marcialidade jeolina. O roteiro era sempre o mesmo. Partiam da Salina rumo à Rua do Coco. Daqui subiam até ao liceu, virando à esquerda na direção do Palácio do Governo. Desciam a Rua de Lisboa, curvavam à direita, entrando na Rua Infante D. Henrique. Os ingleses da Western Telegraph vinhas bisbilhotar enquanto os alvos dólmanes se distanciavam para os lados da Praça Nova, que contornavam, metendo-se em seguida na Rua de Camões. Desta rua torciam para a Rua Machado, em marcha cadenciada, até ao Sr. António Sapateiro, passando pelas traseiras da Câmara Municipal, a caminho da Rua da Moeda. O caudaloso rio vinha finalmente desaguar no ponto de partida, ou seja, no Largo da Salina”, p. 149.

 

Passagem de testemunho

  

SOKOLS.jpg“ – Ora, Sr. Comandante, aqui o Sr. Administrador já me relatou pormenorizadamente as actividades desta associação. De resto, em Lisboa, isto é, na Mocidade Portuguesa, não ignoramos a vossa existência. Estou incumbido de uma importante missão, missão que consiste em fazer os primeiros contactos com as entidades responsáveis directas da educação dos jovens em todas as colónias, com o objectivo de estendermos a Mocidade Portuguesa até estas terras. Ora, aqui em Cabo Verde, vocês já têm um embrião, que é isto, parece que com filiais ou sucursais em outras ilhas, segundo me informou o Sr. Administrador. Há um começo, um começo, aliás, muito auspicioso, muito prometedor, pelo quevejo. Para encurtar razões, que acha o Sr. Comandante à ideia de transformarmos isto em Mocidade Portuguesa?

 

[…] Como que por milagre ou por dignidade do cargo, Joel empertigou-se frente ao major e falou:

 

– Nada temos contra a Mocidade Portuguesa. De resto, é uma instituição também benéfica para a juventude. Só que nós aqui nos Falcões não estamos interessados em ser outra coisa que não seja só falcões”, p. 351-352.

 

Em Setembro de 2015, numa iniciativa da Embaixada da República Checa em Lisboa, foi colocado na Praça Estrela, antigo Largo da Salina, uma placa comemorativa em homenagem aos Sokols ou Falcões de Cabo Verde (1932-1939).

 

Manuel Brito-Semedo

 

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6 comentários

De Djack a 22.08.2016 às 09:27

Um braça também pa bô, medjor trompete d'ilhas de morabeza,
Djack 

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