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Semear livros à mão cheia

Brito-Semedo, 29 Nov 18

 

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“Oh! Bendito o que semeia / Livros à mão cheia /

E manda o povo pensar / O livro, caindo n’alma /

É germe – que faz a palma / É chuva – que faz o mar!”

 

– Castro Alves, poeta brasileiro,

in Espumas Flutuantes, 1870

 

 

Data do início da instalação das ordens religiosas na antiga Ribeira Grande, a organização de uma “sumptuosa” biblioteca, para uso privado da referida ordem, sucateada ao longo do tempo por adversidades várias, pirataria e assaltos, sendo totalmente dizimada no século XIX.

 

Christiano José de Senna Barcellos (Brava, 1854 – Lisboa, 1915), em Subsídios para a Historia de Cabo Verde e Guiné (1905), regista que o “Tombo Velho”, primeiro arquivo da cidade da Ribeira Grande, desapareceu “sem que restasse um único breviário para se dizer a missa” quando, em 1585, Francis Drake, saqueou e incendiou a cidade.

 

Para além disso, o Bispo D. Fr. Pedro Jacinto Valente (1754-1774), tendo-se transferido para Santo Antão, deixou arruinar inteiramente o paço episcopal da Ribeira Grande. Logo que esse prelado aportou a Santo Antão, a 22 de Fevereiro de 1755, mandou pelo seu mordomo vender a mobília e “até os livros da livraria do mesmo. [...] Ficou assim o paço esvaziado, com as portas escancaradas [...] e assim foi caindo tudo a pedaços, ficando totalmente em ruínas ao cabo de 19 anos”.

 

Foram precisos quase dois séculos e meio para que, em 2016, a Cidade de Ribeira Grande voltasse a ter uma biblioteca, desta vez municipal.

 

 

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Bibliotecas Públicas

 

Uma Portaria de 28 de Março de 1857, determinava aos Governadores-Gerais das Províncias Ultramarinas que “promovessem a fundação de uma Livraria das principais obras de História, administração, qualidade e de outros assumptos que teem relação mais ou menos imediata com a governação do Estado”.

 

Os passos efectivos para a materialização dessa Portaria foram dados, primeiro, com a inscrição de uma verba precisa na Tabela de Despesas, para o ano fiscal de 1870-1871, para a dotação de uma Biblioteca e Museu na capital da Província. Na sequência, a publicação de uma Portaria do Governo-Geral, de 14 de Janeiro de 1870, criava uma Comissão Directora da Biblioteca e Museu Nacionais, com a incumbência de elaborar – e, posteriormente, dirigir – um projecto de regulamento destes estabelecimentos.

 

A Biblioteca e Museu Nacionais viria a servir como modelo e estímulo para a criação de bibliotecas em outras ilhas, sendo a mais importante a Biblioteca Municipal do Mindelo, na ilha de S. Vicente, inaugurada em 1882.

 

A partir de 1975 as bibliotecas públicas existentes foram desaparecendo, só voltando a ser reabertas nos anos de 1990: em 1996, a Biblioteca Municipal de São Vicente e em 1999, a Biblioteca Nacional na Praia.

 

22 Municípios, 10 Bibliotecas Municipais

 

No ano 2001 foi lançado o projecto Rede Nacional de Bibliotecas Públicas, suportado financeiramente pelas receitas da Feira do Livro Português, que tinha como propósito a promoção do livro e da leitura. Essa Rede chegou a apoiar, de 2001 a 2007, a criação das Bibliotecas Municipais da Ribeira Brava (São Nicolau), do Tarrafal (Santiago), de São Filipe (Fogo), dos Espargos (Sal) e da Nova Sintra (Brava), com equipamentos, livros e formação de técnicos de biblioteca. A suspensão da Feira do Livro Português em 2011, resultou na descontinuidade do projecto.

 

No entanto, mais que criar bibliotecas, é preciso mantê-las com um acervo actualizado e diversificado, informatizá-las, ter material humano capacitado que desenvolva um trabalho de orientação e promoção do livro, enfim, é preciso torná-las espaços vivos de formação cultural e cidadã. Há que se dotar uma verba no orçamento municipal para o efeito e implementar um Plano Municipal de Promoção do Livro e da Leitura, com criação de salas de leitura nos bairros, realização de feiras de livros regulares, promoção de concursos literários, atribuição de prémios, patrocinar publicações, levar escritores às escolas...

 

Professores leitores geram alunos leitores

 

Na minha função de professor universitário lidei diariamente com a frustração da fraca preparação dos estudantes por falta de leitura. Cheguei a estabelecer que, nas minhas disciplinas, das duas avaliações semestrais, uma delas deveria ser, obrigatoriamente, leitura integral de uma obra de especialidade e não apenas artigos ou capítulos de livros em sistema de fotocópia.

 

Por vezes provocava os estudantes dizendo-lhes que não há muita diferença entre uma pessoa que não lê e aquela que não sabe ler.

 

Preocupante é ver que muitas vezes os alunos não lêem porque os professores não lêem, afinal, como supostamente atribuído a Mário Quintana, poeta, tradutor e jornalista brasileiro, “livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas”.

 

– Manuel Brito-Semedo

 

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