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Sereias, Tritões & Piratas das Ilhas

Brito-Semedo, 13 Jul 18

 

Capton Farel.jpgHomenagem a Valentim Lucas, Vula, 87 anos, Capitão do Ernestina

  

Nestas ilhas atlântidas do meio do mundo acontecem coisas estranhas e insólitas. Por estas bandas, está-se em estado progressivo de esquecimento activo e de apagamento de memória. É preciso resistir, reinventar o amor e recriar a memória.

 

praias

onde naufragaram

navios,

aonde aportaram

caravelas,

onde saltaram

marinheiros queimados,

corsários, escravos, aventureiros,

condenados, fidalgos, negreiros,

donatários das Ilhas, Capitães-Mores…

 

– Jorge Barbosa, “Panorama”,

in Arquipélago, 1935

 

 

 Tritão-Poeta

 

Há quem garanta que existem seres especiais, mitológicos – sirenas ou sereias – a que alguns homens, os mais sensíveis, não resistem aos seus (en)cantos e são enfeitiçados por elas. Há quem também jure a pés juntos, sobretudo as mulheres, que existem tritões, uma versão masculina de sirenas, que têm os mesmos ou mais dons que as sereias.

 

Quando crianças, contavam-nos estórias de sereias vistas a pentear-se à beira mar, nestas ilhas onde os Piratas se refugiaram, o Mar é mulher, os Poetas reinventam o amor e os Marinheiros casam-se com o mar.

 

Há pouco mais de 90 anos emergiu das águas de Sal-Rey um tritão. Conhecido nas ilhas como Daniel Filipe (Boa Vista, 1925 – Lisboa, 1964), o Tritão, trintão de 38 anos, é Poeta e sua obra mais conhecida é A invenção do Amor e Outros Poemas, revelada em 1961.

 

Desde 1964 que o Poeta não é visto e dizem que é o silêncio do Tritão. Outros, que ele se exilou, outros ainda que se mudou para outros mares, mas os mais pessimistas dizem que ele migrou para a terra-longe onde tem “gente gentio que come gente” e de onde nunca mais volta.

 

Cinquenta anos depois, a lembrança do Tritão está a ficar cada vez mais esbatida na memória das gentes das ilhas.

 

É preciso reinventar o amor com carácter de urgência e reeditar o Poeta-Tritão.

 

 Em todas as esquinas da cidade

nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros

mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádios e detergentes

na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém

no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa esperança de fuga

um cartaz denuncia o nosso amor

 

Em letras enormes do tamanho do medo da solidão das angústias

um cartaz denuncia que um homem e uma mulher se encontraram num bar de hotel numa tarde de chuva

entre zunidos de conversa

e inventaram o amor com carácter de urgência

deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana

 

– Daniel Filipe, “A invenção do amor”,

in A invenção do Amor e Outros Poemas, 1961

 

 

Capton Farel, O Pirata de Monte Joana

 

– Cap’tõ-farel?

– Senhor Meu!

– Q’anto vintem tem na caxinha?

– Vinte cinc!

– Q’al é maior?

– Cavalin de Nossenhor!

– Pó de plõ quêmou?

– Quêmou!

– Entõ, real castigue na quem merece!

 

Eram estes os versos de um jogo da nossa infância, “uma eventual nesga muito fininha da memória do Capitão Farewell”, segundo Leão Lopes.

 

Capitão Farel. A Fabulosa História de Tom Farwell, o Pirata de Monte Joana (ponto&vírgula edições, 2006), a estória de Leão Lopes, é dedicada a Paloma, Ary e Sassa, jovens adolescentes, e a Johnny Depp, seu herói no filme “Piratas das Caraíbas”, mas é também para todos os meninos do mundo.

 

“Eu vou contar a história de um pirata. É uma história que há muitos e muitos anos prometi contar e assim resgatar a verdadeira e maravilhosa história de Thomas Farewell, ou bem Tom Farewell, o Pirata de Monte Joana.

 

É uma história como muitas outras, cheia de surpreendentes revelações, com segredos e enigmas pelo meio, mas uma verdadeira história de um pirata sem olho de vidro nem perna de pau (…)”.

 

Começa assim a estória que vai prender os leitores/ouvintes juvenis numa leitura-viagem de perto de duzentas páginas (27 capítulos), deixando-os de olhos grilidos e boca aberta de estupefacção.

 

Leão Lopes garante que o pirata inglês existe e a sua segunda vida foi vivida em Santo Antão há mais de cem anos, tendo durado até um certo dia de Julho de 1975, quando morreu de facto. Mais, o seu Capitão Fareweel, que é o nosso Capton Farel, pode ser visto em Fontainhas, num certo dia de Novembro – mês de neblinas e mistérios – quando ele sazonalmente visita a sua amada aldeia. Isto, desde que cumpridos quatro preceitos, sendo o primeiro o de os meninos lerem esta estória do princípio ao fim; aprenderem a cantar à capela dois tons acima de Manel Jei; aprenderem a dançar bem a contradança; e construírem uma catrega (um disco dentado feito de restos de cabaça rodando entre palhetas de cana de cariço).

 

Chegada a esta parte os leitores estarão a perguntar onde poderão adquirir o livro Capitão Farel. A Fabulosa História de Tom Farwell, o Pirata de Monte Joana. Em parte nenhuma porque, infelizmente, está esgotado diazá e esta foi a forma encontrada para apelar ao autor e a quem de direito a sua reedição.

 

“O que é que aconteceu com uma gente alegre e laboriosa, uma gente viva e empenhada, para perder a memória de si própria?”

 

De facto, nestas ilhas atlântidas do meio do mundo acontecem coisas estranhas e insólitas.

 

– Manuel Brito-Semedo

 

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