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Sôdad de nôs paquêt

Brito-Semedo, 4 Mai 18

 

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Homenagem ao Capitão Crisanto Rufino Lopes, 87 anos

 

 

Cabá navio, cabá vapor… Cabá tud! Gent sem juíze… É nossa sina? Quem é o dono deste crime?

 

Êss qu'é nha terra, é Cabo Verde

Nhor Dês bta-l na meio di mar,

Nabiu di pedra ta busca rumo

Sem podê otcha-l na sê lugar

Ô mar azul, abri-m caminho

Falucho branco, trazê-m nha carta

Povo sagrado tchora quietinho

Cretcheu na peito, morna na boca

 

– Gabriel Mariano, “Sina de Cabo Verde”

  

Desapareceram dos nossos mares todos os nossos navios da cabotagem, faluchos, veleiros… não ficou nem um, nem mesmo um de amostra para a geração futura. Já não há mais navios. Cabá navio, cabá vapor… Cabá tud! Gent sem juíze… É nossa sina? Quem é o dono deste crime?

 

Felizmente que êss nôs paquêt d’otróra permanecem na memória colectiva das gentes das ilhas e são preservados nas nossas moedas – Belmira (5$00), Carvalho (10$00), Novas de Alegria (20$00), Senhor das Areias (50$00), Madalan (100$00) e Ernestina (200$00), recentemente retirada da circulação – e nas nossas composições musicais cantadas aquém e além-mar. Entre mornas, valsas e coladeiras há pelo menos quinze que falam dos nossos navios, de nôs paquêt, da nossa história.

 

Sôdad de nôs paquêt

 

Enumeremos essas composições:

 

Almeida Carvalho, Mar Azul, Barca Sagres e Ernestina (mornas dos anos 40/50), de B.Léza (São Vicente, 1905 – 1958);

 

Matilde (valsa de 1943) e Marlene (morna de 1949) de Silvestre Faria (Brava, 1924 – 1993);

 

Marlene (morna mais conhecida por “N’sta grabadu cu tudu nabiu”), Novas de Alegria, Nova Sintra (mornas dos anos 40/50) de autores desconhecidos;

 

Belga (morna dos anos 50/60) de Djedjinho (Brava, 1912 – 1994);

 

Bordo de Amélia de Melo (morna dos anos 70/80) de Armindo Pires (Santo Antão, 1950?);

 

Ernestina e Corveta (coladeiras dos anos 60) de Ti Goy (São Vicente, 1920 – 1991);

 

Ildut (morna de 1971) de Miquinha (São Nicolau, 1948);

 

Bartolomeu (morna dos anos 90) de Luís Lima (Santo Antão, 1952).

 

Ildut

 

O Ildut, um de nôs paquêt, era um palhabote que tinha sido comprado em Dacar pelo senhor Zézinho que serviu por largos anos as ilhas de São Nicolau, São Vicente e Sal. Ildut foi o primeiro barco de cabotagem a atracar no cais acostável do Porto Grande do Mindelo quando da sua inauguração em 1961, capitaneado por Nhô João Pedro Martins (Nhô Jom Ped de Canja), Capitão de Ilhas e Costas.

 

Capitão João Martins.jpg

Capitão João Pedro Martins (São Nicolau, 01.02.1906 - 17.06.1981)
Foto cedida pelo filho Albertino Martins 

 

O palhabote Ildut afundou-se a 17 de Março de 1970 nas imediações de São Nicolau, perto do ilhéu Raso. É perante a notícia desse facto que  Amílcar Spencer Lopes, filho de Saninclau, e nele viajou durante todo o seu tempo de estudante no Liceu Gil Eanes de São Vicente, compõe a morna Ildut - In memoriam):

 

Ildut - Partitura.jpg

 

Ildut

‘m obi falâ

q’bô bái pa fund

q’bô perdê

dò’m um tristèza

cabò’m legria

fca morabèza

bô era d’família

 

Bô capitão

áse d’sê mister

bôs marinher

gente d’coração

tchêse viaja sab

iça trraquêt

ó Deus q’sôdad

bô era nôs paquêt.

 

– Amílcar Spencer Lopes (Miquinha), Letra e música

 

 

Cabá navio, cabá vapor… Cabá tud!

 

Gent sem juíze…

 

– Manuel Brito-Semedo

 

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