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 Professor Alberto Carvalho, Arnado França e Fátima Bettencourt, 2011

 

 

Duas iniciativas no âmbito do Dia Nacional da Cultura homenageiam o poeta, escritor e ensaísta Arnaldo França (Praia, 1925 – 2015): a inauguração da “Arnaldo França Livraria”, na Praia, no dia 16, e a entrega do Prémio Literário Arnaldo França, enquadrada no Morabeza – Festa do Livro, a ser aberto em Mindelo, no dia 19.

 

Na Praia, a homenagem consistiu na edição fac-similada da brochura Notas sobre poesia e ficção cabo-verdianas, de autoria de Arnaldo França, um estudo inicialmente publicado em “Cabo Verde – Boletim Documental e de Cultura”, em 1962, e testemunhos de Ana Freire, uma ex-aluna de Arnaldo França no Instituto Superior de Educação, e Sara França Silva, neta do homenageado. Coube-me a mim fazer o tributo literário a Arnaldo França.

 

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Cabe-nos a todos o privilégio de colocarmos Arnaldo França no centro das nossas palavras e falar dele como alguém que, pela sua obra literária, permanece vivo.

 

Um gesto laudatório muito comum consiste em começar por dizer que é muito difícil falar do homenageado e enumerar as razões para isso. De maneira contraditória, e nesta ocasião, direi nada haver de difícil em falar de Arnaldo França, no mínimo por dois ou três motivos conjugados:

 

(i) em primeiro lugar, por ter sido um homem discreto por atitude existencial: Arnaldo França não se reconhecia, sem grande mal-estar, ser elevado à galeria das celebridades;

 

(ii) em segundo lugar, por princípio meu, não me reconheço na tarefa de reverenciar heróis, de cultor de figuras gloriosas, de elogio dos ícones do dia;

 

(iii) em terceiro lugar, despertam-me um enorme respeito admirativo as mulheres e os homens que são iguais a todos nós, todavia capazes de empreenderem obras e de fazerem, simplesmente, aquilo que nós não somos capazes, mas gostaríamos de ser.

 

ALEGAÇÃO

 

Arnaldo França entra neste quadro de valoração:

 

(i) homem como todos nós, tem uma bibliografia ensaística que não se distingue da de muitos outros;

 

(ii) mas avulta enormemente de entre nós pela generosidade do seu empenho nos trabalhos a que se dedicou, pela amizade às letras e pelo que elas significam no engrandecimento de um país;

 

(iii) em Arnaldo França, estes atributos bastaram para fazerem dele um “homem de cultura”, no sentido que Mário Pinto de Andrade atribuía a esta expressão.

 

Arnaldo França tem um currículo ensaístico não muito distinto do de outros ensaístas, nem mais nem menos extenso, porém distinto dos de todos os currículos de estudiosos cabo-verdianos que aqui poderíamos agora invocar;

 

Ao falar de livros, Arnaldo França não os observa sob o enfoque de tal ou tal ideologia política, e muito menos, a nosso ver, da que soe ser hipoteticamente a sua;

 

Ao falar de livros, Arnaldo França prescinde dos seus gostos (os gostos são sempre pessoais e intransmissíveis), para atentar preferencialmente no valor das obras, numa análise distanciada;

 

(iv) e o valor não é sinónimo de qualidade literária intrínseca, avaliada em absoluto, mas qualidade relativa, de acordo com os recursos e as possibilidades dos autores e dos seus contextos nas alturas em que os textos são escritos;

 

NARRAÇÃO FACTUAL

 

Fica-se a dever a este primado dos valores relativos, afinal histórico-culturais, dois domínios em que Arnaldo França se notabilizou (se haverá de notabilizar, quando no futuro se escrever uma História isenta de emoções, assim ou de outro modo), dois projectos editoriais de referência:

 

  1. O perfil de filólogo revelado na edição criteriosa de Autores e Obras

 

No mínimo, é bem singular o trabalho dedicado à investigação detectivesca aplicada à “arca” de António Aurélio Gonçalves, obrigando ao exercício de recomposição do puzzle que levou à edição de Terra da Promissão (1998), facto apenas referido no “Prefácio” da edição cabo-verdiana, edição do Banco de Cabo Verde, mas omitido na edição portuguesa;

 

Ao seu labor interessado se devem as restantes edições de Aurélio Gonçalves, sem as quais não seria certamente tão conhecida esta glória das letras cabo-verdianas – Noite de Vento (1985), Recaída (1993) e Ensaios e Outros Escritos (1998);

 

Por outro lado, creio serem notáveis os trabalhos de estudo, comparação e fixação, bem como as lições filológicas deixadas impressas por Arnaldo França nos “Prefácios” aos livros de poesia de Guilherme Dantas, Poesias (1996); António Januário Leite, Poesias (2006); e Baltasar Lopes, Escritos Filológicos e Outros Ensaios (2010), em parceria com Alberto Carvalho. Para além do exímio trabalho de organização dos livros de poesia de Oswaldo Alcântara, Cântico da Manhã Futura (1986), e de Jorge Barbosa, Obra Poética (2002), este, juntamente com Elsa Rodrigues dos Santos.

 

A marca d’água de Arnaldo França, no sentido em que atesta a autenticidade dos textos, é, neste capítulo, indelével, sem auto-elogios sobre o seu saber-fazer-bem aquilo de que se incumbe, deixando à vista a objectividade do estudioso em trabalhos exemplares, a serem seguidos;

 

A serem seguidos, ou talvez não, infelizmente, sendo porém certo que esta pequena Escola, onde pontuam os nomes de Félix Monteiro e Arnaldo França, é um belo exemplo de disciplina que muito valorizaria a cena cultural cabo-verdiana.

 

  1. O sentido empreendedor implicado na publicação da revista Raízes

 

Sabe-se como as coisas se passam... Arnaldo França não terá sido apenas o Director da Revista Raízes (Praia, 1977-1984), mas o homem a serviço da Revista, de que se pode ainda dizer o mesmo, quanto ao empenho numa causa cultural literária em um momento histórico temerário; ao menos isto: a despeito das prioridades da construção da Soberania recente, a cultura não entrou em uma fase de eclipse.

 

Não se sabe por palavras ditas, mas verifica-se ao compulsarem-se todos os números da Revista que terá sido regra editorial aquilo que faz lembrar José Régio e Adolfo Casais Monteiro, com Presença Revista de Arte e Crítica (Coimbra, 1927-1940) ou Baltasar Lopes, com Claridade – Revista de Arte e Letras (São Vicente, 1936-1960), no tocante ao que deles dependia, lapidarmente: é bom?, tem interesse?: publique-se!

 

A discrepância torna-se evidente entre a riqueza dos textos-conteúdo e a maquete da revista de concepção bastante modesta. Com exclusão da capa a apenas duas cores, e da escassez iconográfica (apenas algumas poucas gravuras), os textos apresentam uma tipografia relativamente pobre, quase artesanal, com os trechos da composição não paginada por vezes marcados em alto-relevo.

 

Este conjunto de anotações demonstra bem a importância que se deve prestar ao tempo histórico dos factos. Podendo parecer penalizadores, só revelam objectivamente essa louvável disponibilidade sacrificial para não “baixar os braços” em tempos em que as coisas da cultura costumam ser as primeiras crucificadas.

 

Arnaldo França entrou para o Governo como Secretário de Estado das Finanças em 1979 e as responsabilidades do cargo afectaram a sua disponibilidade e dedicação à Revista, haja em vista a irregularidade com que ela passou a sair e nos números compactos. Vejamos: a revista que tinha saído em 1978 com um número duplo 5/6, Janeiro-Junho, não saiu no ano de 1979 e em 1980 ressurgiu com um número correspondendo a 7/16, Julho 1978-Dez.1980. Em 1981 saiu mais um número, 17/20, Janeiro a Dezembro. O número 21, que viria a ser o último, corresponderia a Junho de 1984. Sintomático.

 

BREVE DESCRIÇÃO DO RETRATO DE PERFIL DO HOMENAGEADO

 

Desta breve descrição podemos esboçar um retrato de perfil de Arnaldo França em torno de um mínimo de ideias mestras de sentidos convergentes. O ensaísta que dá nítida preferência às metodologias historicistas, desalinhado dos modismos fugazes, é também o escrupuloso filólogo por definição amoroso das palavras, no sentido em que também se pode ler com gosto pelas palavras de amor. Longe de modismos fugazes significará neste caso a vocação para o clássico soneto de inspiração lírica.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Resumindo este ponto alto do tributo literário a Arnaldo França:

 

– Homem de cultura extraordinariamente vasta

 

"Arnaldo França, o primeiro nome em que se pensa quando se quer garantias de conhecimento, de cientificidade e de seriedade” – Corsino Fortes, 2005

 

– Homem de grande generosidade e disponibilidade

 

– Ensaísta de grande lucidez e argúcia analítica e interpretativa como se verá quando a sua obra for publicada

 

– Poeta de grande mestria na arte do soneto

 

SONETO

 

Tão longe de meus olhos te revejo,

Na lonjura marítima da hora,

Nem flor que se engastasse à côr da aurora,

Nem sonho que brotasse ao ardor de um beijo.

 

Real, real te quero e te antevejo

Mas bem longe de mim te tenho agora –

Nua e concreta fosse a dor que aflora

À carícia da fome e do desejo.

 

Ó meu amor, quem pôs pelos caminhos,

Restos de sonho e de carinhos,

Quem semeou de dor o mar sem fim?

 

Pára o relógio louco desta vida,

Basta-te, dia a dia, em tua lida

Tem forças na ilusão, espera por mim.

 

(in Claridade, n.º 9, Dezembro.1960

 

Poeta de pouca poesia mas de elevada sensibilidade lírica, poeta lírico, exemplo raro no panorama contemporâneo cabo-verdiano.

 

Arnaldo França não teria gostado que lhe chamassem poeta lírico, mas esse é um mérito raro nos tempos que correm.

 

Estou em condições de anunciar que já se está a trabalhar sobre o espólio, vastíssimo, muito diversificado, verdadeiramente erudito, ao contrário do que poderia supor à vista da modéstia de que Arnaldo França se revestia. Espólio impressionante, segundo o Professor Alberto Carvalho.

 

Poeta/tradutor de Português para a Língua cabo-verdiana

 

A título de exemplo:

 

ABANDONO OU FADO PENICHE

 

David Mourão-Ferreira

 

 

Por teu livre pensamento

Foram-te longe encerrar.

Tão longe que o meu lamento

Não te consegue alcançar.

E apenas ouves o vento.

E apenas ouves o mar.

 

Levaram-te, era já noite:

a treva tudo cobria.

Foi de noite, numa noite

de todas a mais sombria.

Foi de noite, foi de noite,

e nunca mais se fez dia.

 

Ai dessa noite o veneno

Persiste em me envenenar.

Ouço apenas o silêncio

que ficou em teu lugar.

Ao menos ouves o vento!

Ao menos ouves o mar!

MORNA TARRAFAL

 

Versão crioula de FADO PENICHE,

de David Mourão-Ferreira

 

Mó bu cabeça ê sim dono

És fitchabo longi bu casa.

Nim nha tchóro, nim nha grito

Ca ta tchiga djunto bó.

É só mar qui bu ta ôbi.

Bu ca t´ôbi más qui bento.

 

És lebabo nôti fitchado,

Nôti sucuro di treba.

Era nôti cima agôro,

Nôti nim ano di fome.

Era nôti, era nôti,

Ti hoji inda ca manchê.

 

Veneno qu´ês da-m´quêl nôti

Ti góci ê´sta-m´ na sangui.

Na casa, na bu lugar

Só basio fica co mi.

Bó ao menos bu tem bento.

Bó ao menos bu tem mar.

 

– Docente do Instituto Superior de Educação

 

Foi professor de Literatura e Cultura Cabo-verdiana, orientador de trabalhos de fim de curso e um dos construtores do primeiro curso que conferiu o grau de licenciatura no país, o Curso de Estudos Cabo-verdianos e Portugueses (anos 90). Foi Chefe do Departamento de Estudos Cabo-verdianos e Portugueses e eleito Presidente do Conselho Cientifico, cargo que exerceu até ter terminado, em 1997, a sua colaboração na instituição que, entretanto, passou a designar-se Instituto Superior de Educação.

 

– Manuel Brito-Semedo

 

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