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João Damata Costa

 

 

Em 1970, após três anos na Ilha Brava como delegado de saúde, sem ter gozado um único mês de licença disciplinar (por fazer falta ao serviço, como determinava o Boletim Oficial), chegou a minha vez para exercer a função de delegado de saúde e guarda-mor de saúde do Porto Grande de S. Vicente, função rotativa nessa época e a única que permitia aos médicos mais novos amealhar alguns cobres. Investi esses cobres para me especializar em Pediatria e Saúde Pública em Lisboa.

 

Eu, a minha mulher (grávida da nossa filha) e o filho de três anos, viajámos no Primus, tendo o navio pernoitado no Fogo para carregar sacos com semente de purgueira. Chegado a S. Vicente e atracado ao cais, contrariamente ao habitual de olhar do barco para as pessoas no cais de cima para baixo, no Primus via os familiares que nos foram esperar, de baixo para cima, tal o tamanho da casca de noz. Dormi, durante a noite de viagem, sobre sacos com semente de purgueira, e a minha mulher e filho no beliche do comandante, cedido por deferência, visto ser Bravense e nos conhecer. Desembarcados, sujos, cansados e enjoados, só ambicionávamos um bom banho para refrescar o corpo, mudar de roupa e repousar.

 

Durante o tempo em que fui delegado e guarda-mor de saúde (sete meses), houve uma epidemia de cólera nalguns países africanos e na América do Sul, e houve que tomar medidas que prevenissem a entrada da epidemia em S. Vicente. Se tal acontecesse, seria mesmo catastrófico dado o péssimo estado de saneamento da cidade. Cheguei, num dos meus relatórios, a definir o Mindelo, parafraseando a definição de ilha, como uma porção de casas, ruas e becos rodeada de esterco por todos os lados.

 

Dediquei alguns meses a percorrer e a estudar todos os recantos da cidade, na companhia do enfermeiro das Endemias, Rui Pélico Neto, no meu carro pessoal, por a delegacia de saúde não dispor de transporte. Aproveitámos a oportunidade para desinfestar, com os pesticidas remanescentes das Endemias, todos os bairros de lata, e, por fim, apresentei à Câmara Municipal (CM), um detalhado relatório com propostas exequíveis para o saneamento da cidade, que de nada serviu, por nunca ter sido discutido, não obstante o Presidente da CM ser um amigo, o Dr. João Quirino Spencer. Somente depois da independência é que Nelson Atanásio, sabendo da existência da minha proposta e formação em Saúde Pública, me pediu uma cópia do documento, tendo-o aconselhado a procurar a proposta no caixote de antiguidades da CM, poupando-me a ter de procurar a cópia nos caixotes que ainda tinha por abrir após o regresso de Lisboa. E lá encontrou a minha proposta, que o ajudou, como confessou publicamente, na concepção e elaboração do plano sanitário do Mindelo.

 

Uma das medidas tomadas para prevenir a entrada da cólera, decidida a nível central, foi a vacinação contra a doença de todas as pessoas em risco, mormente das que viviam em contacto com os barcos que aportavam à ilha. Estabelecemos essa lista e começámos as vacinações, que ia controlando com o enfermeiro Portela e o agente da sanidade Centeio. Terminadas as vacinações, informou-me este de que todas as pessoas em risco da lista tinham sido vacinadas, excepto o senhor João Damata Costa, vulgo Damatinha, que se tinha, terminantemente, recusado.

 

Conhecia bem a têmpera, história, anedotas reais e inventadas do Damatinha desde a minha infância mindelense, e não raras vezes o encontrava no Café Algarve, onde ia beber, diariamente, o seu galão acompanhado de bolo de arroz, e me cumprimentava com aquele aperto de mão seca e calejada que mais parecia aperto de tenaz.

 

Determinei interdição absoluta da sua entrada a bordo e aproximação dos barcos e esperei, tranquilamente, a sua reacção.

 

O Senhor Damata apareceu-me na delegacia de saúde, sem se dar por achado. Expliquei, pacientemente, as razões da vacinação das pessoas em maior risco de contraírem a doença, perguntando-lhe, em seguida, qual a razão da sua recusa.

 

A resposta foi que nunca tinha apanhado uma única injecção na sua vida, e já ia em vésperas dos noventa. Que o risco dele era mínimo, por fazer o negócio do seu bote sem necessidade de entrar nos barcos.

 

Argumentei que, não sendo ele nenhum jovem, pela idade que me tinha confessado, era de prever que as suas resistências à doença estivessem diminuídas, e que, portanto, só poderia beneficiar com a vacinação.

 

Sem se dar por vencido, foi-me arengando que em tempos recuados houve uma bruta epidemia de varíola, sendo, até, o médico do Porto Grande o meu pai, Dr. Hermano, e eu, se calhar, nem tinha nascido. Nem nessa altura foi vacinado. Ademais, o amigo Djô Figuera, homem lido e que percebia desses assuntos, tinha-lhe confidenciado que essa vacinação só dava 60% de protecção.

 

Aí dei-me conta de que o nosso homem vinha preparado para me entalar, e tive de mudar de estratégia, virando a conversa para o sentimento.

 

Tudo bem, senhor Damata, lhe atirei. Mas, não acha que seria uma beleza e confirmação da amizade da sua parte por mim, se permitisse que fosse eu próprio a aplicar-lhe a pica da vacina, quando nunca nenhum outro médico, nem enfermeiro tenham conseguido convencê-lo a sujeitar-se a uma injecção?

 

Lá bonito seria, senhor doutor … e bem sabe que simpatizo muito consigo …

 

Pareceu-me, pela hesitação e a pausa feita, que o tinha levado à certa, e poderia cantar vitória depois de lhe aplicar a injecção, quando, num repente, se empertigou, levantou-se como uma mola da cadeira, e, virando-se para mim, completou a sua frase – tudo muito bonito, senhor doutor, mas no meu cu não mete agulha!

 

Não pude disfarçar um sorriso e tive de me conformar com a promessa de ele continuar a fazer o negócio do seu bote sem subir a bordo, o que cumpriu, segundo me informaram da sanidade marítima e capitania dos portos.

 

Homens dessa têmpera já não existem; vêm-me à memória outros dessa época que se dedicaram ao negócio de bordo ou pertenciam à retaguarda destes, como Scofield, Jorge Grego, John Perry, Djô Figueira, Afonsona, Mochim Mercano, Pedro Cláudio, entre tantos outros, que emprestaram uma característica particular a S. Vicente, criando empregos e facilitando a vida a muita gente. Foram desaparecendo com a decadência da nossa bela Baía do Porto Grande e o abandono da ilha pelo poder central, na quase passividade dos mindelenses. A indiferença é culpável …, caros mindelenses! Outrossim, os governantes – isso relativamente ao ostracismo votado a S. Vicente em benefício de Santiago – esquecem-se de que o que define uma nação é ser uma comunidade de afectos e equidade, pelo que cada vez que se fere esta, ou parte dela, se esteja a destruir a identidade, justiça e progresso nacionais.

 

- Arsénio Fermino de Pina

S. Vicente, Julho de 2013                                                       

 

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